
Amanheceu comigo a saudade. Uma saudade nostálgica, meio esvaída e dissipada. Porque é essa a lembrança que hoje sobra de ti, Laura. Porque tu és assim mesmo, ténue e suave, meiga e polida. Todo o teu corpo esconde a enorme força que contêm, e o teu doce olhar finge que não tem nem uma pontinha de malícia. E eu sei que é mentira! Sei que me olhas e me despes, num ápice! Numa pequena fracção de segundos, estou rendida e húmida, e a culpa é do teu olhar, do teu tremer de lábio, da postura das tuas mãos. A culpa é tua, Laura!
E esta noite, enquanto tomava banho, foi contigo que estive… no pensamento! E deitei-me contigo, e acordei contigo, e vou trabalhar esta tarde contigo… e depois, Laura? E depois???… Como faremos as duas, quando eu não quiser ver o pôr do sol apoiada no teu lindo colo, e não refrescar vinho para nós, e não te esperar à tardinha? Como faremos??? Nunca te prometi coisa alguma, minha doce, e tu sabes que nunca o farei… Não uso de desonestidade para contigo, porque és especial demais para o fazer. E esta tarde também vai ter um pôr do sol, e um mar, e tu estarás fresca como sempre, e a cheirar a flores como ontem. E nada mudou, mas eu temo! Temo que torne a ser bom demais! Temo que não resista a deitar-te devagar, para beijar a tua pele cor de mel. Temo que os teus beijos me faltem e eu dê conta do quanto gosto de ti! Sabes, Laura?… Fecho os olhos e vejo calma. A mesma calma que sinto quando estou contigo de mãos dadas, recostada no mesmo cadeirão que tu, com as nossas pernas entrelaçadas… Parece que o mundo pára, não é? Mas não pára! A vida fora do nosso ninho, continua a rodar, a rodopiar, e nunca me posso esquecer disso. O meu marido continua igualzinho… quer eu esteja contigo, ou sem ti. Continua a querer amar-me pelas noites fora, dia após dia. E quando o olho nos olhos, Laura, não sei que sinta!
Olha minha doce, pelo sim pelo não, vem novamente esta tarde… Traz o teu violino, e toca para mim uma música calma e triste, que será o prenuncio do nosso destino. Ele será a única testemunha do crime que tão ardentemente cometemos, e chorará connosco o amor que febrilmente fizermos. Não demores, parece que já o ouço num pranto, contigo coberta de beijos e carícias, carinhos e fluidos, que não são meus nem teus – são nossos!…