Abutre

Fevereiro 2, 2009

dor

 

Não! Não venhas de negro, qual abutre que procura resquícios do que já não tem vida e permanece em decomposição! Não venhas! Não queiras ver-me curvada e feita em pedaços. Não queiras debicar o fedor da dor, não queiras degustar com lambidelas lentas os trágicos bocados de que sou feita. Não te vistas de andorinha, não finjas que trazes para a minha vida o sol e o cheiro a flores. Ambos sabemos que não anuncias Primavera, e que te aninhas no Inverno lamacento onde insistes em me fazer chafurdar. Não fiques a pairar por cima de mim, com asas de mentira e penas de crueldade. Não venhas lucrar com a putrefacção dos sentimentos que subtil e habilmente ajeitaste um dia, a um canto. Não os venhas devorar. Não venhas lamber a dor aguda que cai e me definha.

Não venhas!